Pois é

25 01 2010

Teve um dia que choveu assim e nos demos as mãos. As venezianas estavam fechadas os pingos dágua batiam com força, querendo entrar. Conseguiram encontrar dois corpos inundados dizendo sim. Só por hoje. Como em todos os dias, menos um pouco. Tenho tinta spray e tenho seus segredos. E a parede da sua casa é enorme e vazia. Mas o máximo que eu iria fazer é um desenho torto e desajeitado. Tão autoral que nem precisaria levar assinatura. Quantos quilômetros tem a memória? A mácula daquele vestido branco que se soltou facilmente sob a luz do abajur. Os pés descalços e aquela passagem de ano que eu criei pra você. Agora sou outra. E você já celebrou todas as modificações mais simples com frases pontuais que guardo nos tímpanos. Eu super sou pro seu bico. E o destino matou o anonimato que nos cercava. Mas continuamos fingindo. Tá sobrando silêncio. Um amigo que eu nunca tive. Não solta da minha mão. Foi de um ímpeto que ia me arrastando naquela multidão. Vamos ver tudo de perto. Eu vi.





Atualf, o contador de histórias*

19 12 2009

Porto Alegre, dezembro de 1992

Gente:

Tanta coisa para dizer, contar… resumindo: tá difícil, trabalhoso, mas acreditamos que para o ano vamos colher os frutos. As crianças estão muito bem. A Talia gosta do meu rabinho porque… ora, porque ela usa rabinho também… O Santiago se incomoda com o tal rabinho. Tem vergonha de andar comigo pelas ruas de Porto. Moleque fresco. Tá meio caretão. Também, pudera! Estão sendo educados pelos avós! Mas, e por aí, tá tudo bem? A Fernanda deve estar uma gatona depois de um ano. O Narciso e a Dida babando no sofá, né? E a molecada da Ia? Estão bem? Dêem um beijão em todos eles por mim, para Maria da Graça também. Saudades… Sinto saudades de uma coisa que há tempos não fazíamos mais. Baralho. Pontinho, caxeta (será cacheta?). Mãe, eu gostaria muito, mas muito mesmo que a senhora me ensinasse a fazer o doce de banana amassada e cocadinhas. Tentei fazer o doce e não ficou escuro, apesar de ter colocado umas gotas de limão. Ficou cor de merda de nenê. Eu vou escrever uma carta para a senhora. Mando alguns palpites para o bicho e a senhora me diz como fazer um salgado que agora não lembro qual. Como está o Zé Carlos? Mandem notícias dele. Beijos no Fred e André. O Fábio está em Cabo Frio? Esse vai casar logo… com uma mina de Cabo Frio. A Flávia tá por aí, né? Beijão nela. Vou escrever para a Ana Maria também. Fernanda, eu acho que você iria gostar muito desse espetáculo do verso. Não é um espetáculo infantil. Ele não tem idade. Durante 50 minutos eu conto duas histórias. Numa delas eu utilizo cinco bonecos: o papagaio, a bruxa, a coruja, o pirilampo e o grandalhão. Espero fazer uma temporada aí em São Paulo até o mês de abril ou maio. Aguarde! José… saudades de José. Como é que ele está? Beijo nele e na Sílvia. Digam para ele que me escreva. Tá difícil de entender, é? Vou caprichar mais. O José está curtindo a bicicleta? Dida, você continua pintando? Não pára, por favor. Você pode ser a outra artista da família. Tá louco! Artista sofre mais que professor. Falando em sofrer, sempre lembro da sua bacalhoada. Incomparável! Ontem fui ao supermercado e troquei o preço do bacalhau pelo preço do couro de porco para feijoada. Só assim para comer bacalhau. Ainda assim fizemos quibe, para aprender mais. Quando falarem com a Lúcia e Paulo, mandem beijos. Também para Isabela e Renata. Herança, nem pensar… não é mesmo? Que bosta, não? Quem será que vai aproveitar dessa grana, Meu Deus? Quando tiverem algum fato novo, informem. Ainda tenho esperanças. O Narciso e o Danadinho já assumiram? Um abração, nos dois. Mais para frente escrevo mais. Beijos mamãe, beijos a todos.

Edu.

*Essa carta foi escrita por Carlos Eduardo, o Tio, ator, pianista, melhor cozinheiro do mundo e chato pra burro. Como papel ele utilizou os folhetos de divulgação da peça que apresentou no Teatro de Arena, em Porto Alegre, no ano de 1992. O ingresso custava Cr$ 7.000,00, mas na apresentação do “volante” você tinha desconto de Cr$ 2.000,00.





Simple Twist of Fate

9 12 2009

Começa com uma inquietação, que em sua escala muda sobe oitavas atrás de oitavas dedilhando teclas de memórias distantes e perigosas; não as memórias que guardamos nos bolsos dos casacos de inverno – para sorrir a cada encontro furtivo quando a necessidade de aquecer o corpo é maior do que a coragem para se desnudar -, mas aquelas que surgem da coxia quase fictícias, quase sem autoria, como se as perdêssemos propositadamente para questionar nossa existência.

(pavor)

Quimicamente afrontada com um beijo negro que lhe roça a língua, solta os cabelos no travesseiro para tocar-se nua e guardar os gritos nas gavetas espalhadas pela casa. Em cada uma delas um lamento, chamado, gozo, busca, abraços, conforto, luto, distrações.

(fria transpira)

Queria um puçá para caçar os risos sem rumo na madrugada dos homens honestos.

(fêmea)





Reckoner

4 12 2009

É um cheiro doce e quente que emana, tão permissivo, tão íntimo, que para sentí-lo esconde o resto entre as mãos no escuro.Foi perdendo o apetite na sinfonia dos talheres, foi perdendo o sono pelas frestas da janela, foi se descompassando suavemente como se decidisse planar. Foi autômata quando sorriu, passou a quinta marcha na curva de olhos fechados, ofereceu-se ébria. Caiu maquiada com uma forca de pérolas, surrou os joelhos no chão, deixou os dedos deslizarem no seu pescoço – e eles todos àvidos, rápidos, sagazes -, espocou no céu, de pupilas secas, maxilar rígido. Havia algo a ser soterrado na familiriadade do silêncio, mas foi mais rápida do que isso. Se não podia ser uma, seria meio. Embaixo da língua.





Paixões Alegres (trecho)

20 11 2009

“O crepúsculo me devolveu o puro prazer do caminho das águas. E me devolveu Isabel. Não para me dar de novo quem eu já perdera, mas para me consolar de estar distante dela, esse consolo de não tê-la ao alcance das pernas, a quilômetros da tentação de ceder a pretextos variados para procurá-la; e agora já ciente e consciente do adeus definitivo, certo de que o rompimento do namoro fora seu último gesto de amor ao rapaz da beira do rio, eu encontrava no vapor aquilo que no trem de ferro me escapara: a calma da viagem para cicatrizar amarguras em paz, a marcha vagarosa onde eu podia ruminar os últimos prazeres da carne, à lembrança de ter vivido essa paixão, e os primeiros avisos da ferida, por já saber que tudo acabara de vez. Como eu sofrera a antecipação do fim, secretamente julgado provisório, a passagem do provisório ao definitivo não teria uma assimilação necessariamente longa, caindo bem ao meu amor desiludido essa demora de marcha vagarosa, alongando a distância e retardando o momento de estar no mesmo solo onde cumpria pena aquela cuja consciência de ter me deixado para sempre eu adquirira em sua terra; (…).

Mas eu fizera as pazes com o Tempo.”

José Antônio de Souza, Paixões Alegres





Temporay Like Achilles

18 11 2009

A última vez que eu o encontrei foi em um trem. Não poderia ser mais metafórico do que isso e, dadas as coincidências da vida e a arrogância do destino, eu não escolheria aquele tempo ou lugar – o que me pareceria, sem dúvida, um roteiro fraco de cinema ou no mínimo um artifício pobre da memória.

Mas foi no trem. Ou melhor, na catraca. Tinha acabado de passar meu bilhete quando ouço:

- Sua louca.

E me virei e o vi. E mais tarde fui perceber que essa era a síntese da lembrança que eu havia instalado ali. Louca. Não um sentido de desequilíbrio ou falta de sanidade. Mas como uma condução instintiva da vida e dos sentimentos. Louca.

Conversamos civilizadamente sobre há quanto tempo não nos víamos e o que fazíamos das nossas vidas medíocres e outras funções fáticas. E ele logo quis se justificar que tomar o trem não era um hábito seu; foi só um impedimento em relação ao carro – problemas mecânicos, ele disse – e parecia realmente chateado por conta disso como se fosse condenado perpetuamente ao azar.

Eu, em mim, estava a lembrar de todos os sentimentos que tinham existido enquanto ele salivava ao contar sobre seu novo emprego. Ouvi muito pouco. Comparei nossas aparências díspares. E, de súbito, pensei naquela situação como a última chance.

Com a sincronicidade única nascida da intimidade com o transporte, momentos antes da minha estação, pontuei:

- Eu amei muito você durante anos. Espero que você seja feliz.

As portas abriram e eu saí. Cretina e pontual. Como se alguém fosse falar “corta!” quando o veículo partisse.

Hoje ele é casado e tem um filho. Tem a maior pinta de fazer churrasco todos os finais de semana e ouvir Ivete Sangalo. Parece ser honesto e realizado.

E eu continuo sendo a louca do trem.





Meu Glorioso São Cristóvão

11 10 2009

Sentou-se na cadeira como se houvesse pousado de um longo voo, se ave fosse; no entanto as asas fictícias não tinham nenhum destino secreto, muito menos ponto de partida. Viu os detalhes de sua vida espalhados na mesa de trabalho, detalhes-objeto, cada um deles, em sua individualidade matéria sendo uma peça de uma história ou a história de uma peça. Remexeu nos artefatos com a displicência da ignorância.

Entre eles, papel onde o registro do tempo era contado nas dobras e manuseio; papel particular que pairava sobre outros tais e recrutava memórias constipadas. Bilhete reconhecível pelo tamanho, cor e escrita. Um convite suculento para despertar a velha dor do esquecimento; ou antes, a velha dor da lembrança, pronta, à espreita, de uma selvageria polida e atraente.

Os dedos foram rápidos para que a autoimolação fosse, em seu desajeitado abraço, tanto menos dolorosa. Abriu, reconheceu e fechou. Mas a retina já estava queimada por aquela impressão. Companheira, cínica. Jogou a cabeça para trás e transitou dentro de si.

Recobrada e restabelecida em seu próprio tempo, perguntava-se que motivos serviam aquele propósito. Se o fossem genuínos e honestos, tanto melhor. Procurou-os sem fim por entre os pertences, sem sucesso. Quando vasculhou a cabeça, encontrou razões suficientes. Quando perguntou ao coração, as lágrimas responderam.





House of Cards

1 10 2009

Quando encostou o queixo naquela superfície fria e só podia divisar a luz branca que iluminava aquela sala estranha, fechou os olhos e as lágrimas rolaram como pequenas moedas atiradas do teto.  Bateram com violência no chão sujo, espocaram em silêncio, e fizeram uma poça de água e sal que provavelmente seria atacada por uma profusão de solas de sapatos anônimas ao decorrer do dia.

Colocou as mãos na cintura e prendeu a respiração. Vieram-lhe à mente algumas imagens esparsas, quase como se não fossem reais: o menino sobre a ponte montado na bicicleta com uma bexiga amarrada ao guidão; as mãos dadas e a cabeça aninhada no corpo frio; a risada dela e as rugas em torno dos olhos, os dentes, o som do ar entrecortado, a falta de fôlego como se fosse desmaiar de tanta alegria.

Apoiou as mãos nas barras laterais. Respirou fundo, mas seu fundo era raso demais para aquelas lembranças tantas, para aquela vida, daquele jeito, naquele instante. Pediu perdão para si mesma. Não houve resposta.





A interrogação e a barra

25 09 2009

Foi de repente. Apertei com força uma, duas, três vezes, mas a tecla de interrogação do computador parou de funcionar. Poderia ser até uma coisa corriqueira, mas é um transtorno enorme o fato de não poder fazer perguntas.

Não posso perguntar nada aos amigos, não posso ter dúvidas sobre um filme, livro ou acontecimento, não posso questionar regras ou opiniões. Tudo porque perdi a interrogação. O pior é que ela não desertou sozinha. Foi embora junto com a barra, que parece pacata e simples, mas também possui sua utilidade.

Gostaria de ter consciência do que fiz para essas duas. Penso que pode ter sido um caso triste de abuso de sinais. Às vezes, distraidamente, procuro em vão a tal da tecla que as disparava na tela. E não é a mesma coisa criar um atalho para que elas voltem a existir. Eu nem saberia fazer isso na verdade, mas, se o soubesse, teria pouca coragem. Seria como incomodá-las em seu local secreto; retirá-las de seu refúgio e não respeitar o fato de que estão, de algum modo, magoadas comigo. 

Por algum tempo decidi subverter o significado do ponto-e-vírgula a meu favor e passei a usá-lo como ponto de interrogação. Mas achei melhor adotar outra medida porque comecei a temer que o transtorno de personalidade deste símbolo poderia levá-lo a também me abandonar.   

Agora fico por aí roubando interrogações dos outros. Basta um amigo perguntar como estou no MSN para logo me lançar do control+c e furtar a pontuação dele para mim. Uso das questões dos outros para fazer as minhas. E, para minha surpresa, a necessidade delas vêm diminuindo ao longo do tempo, como se sua falta implicasse diretamente em limitar minha curiosidade.

Secretamente ainda tenho esperança que a interrogação e a barra voltem logo para o teclado. Como quem não quer nada, dia sim, dia não, forço o dedo na tecla novamente. Se voltarem, serão bem-vindas. Prometo não fazer perguntas.