Fazia tempo que um domingo não era um domingo assim.
Um dia que acorda sem pedir licença e vai ao supermercado logo cedo. As pessoas reunidas na contemplação da seção de vinhos com medo de errar o rótulo e a uva. Alguns consumidores com olhos de cobiça sobre um pacote de macarrão, outros com as mãos cheias de itens aleatórios que dizem mais do que deveriam sobre suas vidas, como se houvessem luminosos semi-apagados sobre suas cabeças: você é sua compra de supermercado. Volte sempre, conte-nos seus segredos.
Arrisco-me. Dou um passo a frente e escolho uma garrafa desconhecida. Errar o vinho hoje seria um deslize imperdoável. Corro à parte dos gelados e encontro segurança numa torta de chocolate velha conhecida, como para compensar a minha falta na arte de sommelier. Caso bebamos vinagre, há açúcar de sobra para atuar nas enzimas do esquecimento.
Interlúdio: vou usar a melhor roupa que tenho como uma espécie de deferência às companhias tão caras que dividirão a mesa e os sonhos comigo.
A comida ali é um mero pretexto para relaxar o maxilar e contarmos a crua realidade de tudo que vimos, ouvimos e não entendemos. Das coisas que entendemos, pouco há sobre o que falar, como se sua compreensão deixasse um mutismo intrínseco no ar. O que realmente causa suores à língua são as indagações que possuímos sobre o desconhecido. A salivação resultante é cheia de mistérios expectativas.
Quando anoitece, esticamos nossos corpos a meia luz e divimos a sonolência da fartura dos pensamentos.
Fazia tempo que um domingo não era um domingo assim.
E a insônia que me resta tem uma causa bem clara: felicidade.
Eu, por mim, fazia desse domingo o meu cotidiano!
Amo todo dia e a cada dia mais.
Beijo!