Absentee

23 11 2010

Pedi uma coca-cola entre meninas falantes – exaustas e falantes, degradadas e falantes, impecáveis em seus saltos, mas com medo de tomar chuva nos pés. Tinha ali clandestino no bolso um solitário (reconfortante) 0,5, que saquei discretamente e joguei bem no fundo da boca. Veio o gás do refresco enlatado e a cor das coisas começou a voltar. Não a cor das nossas manhãs, não o pantone de nossas noites, mas ali havia algum tipo de luz no reflexo das pupilas e eu quase pude ouvir o mundo pulsar. Era algo escala de cinza, porém dissipou o negrume que me embaçava a vista e os joelhos pararam de fraquejar.

(a casa dorme numa sinfonia triste de notas que piscam com as luzes de natal dos vizinhos ávidos pelos refluxos do calendário: azia do tempo)





Beautiful

29 09 2010

E justo neste momento quando meus olhos encontram os seus, há uma ausência de espaços – antes talvez a permanência dos sorrisos na secreta certeza dos lábios. Vivemos a madrugada dos corpos que anoitecem feridos de beijos, tombados pelo encontro desde aquela noite onde a poesia nos alvejou (vítimas) na calçada e onde então tudo se fez espera.

(Há um silêncio tépido em cada palavra alheia como que para ecoar dentro de mim os seus suspiros.)

Não há outra morada (eu) para o inescrutável.





Domingo

16 08 2010

Fazia tempo que um domingo não era um domingo assim.

Um dia que acorda sem pedir licença e vai ao supermercado logo cedo. As pessoas reunidas na contemplação da seção de vinhos com medo de errar o rótulo e a uva. Alguns consumidores com olhos de cobiça sobre um pacote de macarrão, outros com as mãos cheias de itens aleatórios que dizem mais do que deveriam sobre suas vidas, como se houvessem luminosos semi-apagados sobre suas cabeças: você é sua compra de supermercado. Volte sempre, conte-nos seus segredos.

Arrisco-me. Dou um passo a frente e escolho uma garrafa desconhecida. Errar o vinho hoje seria um deslize imperdoável. Corro à parte dos gelados e encontro segurança numa torta de chocolate velha conhecida, como para compensar a minha falta na arte de sommelier. Caso bebamos vinagre, há açúcar de sobra para atuar nas enzimas do esquecimento.

Interlúdio: vou usar a melhor roupa que tenho como uma espécie de deferência às companhias tão caras que dividirão a mesa e os sonhos comigo.

A comida ali é um mero pretexto para relaxar o maxilar e contarmos a crua realidade de tudo que vimos, ouvimos e não entendemos. Das coisas que entendemos, pouco há sobre o que falar, como se sua compreensão deixasse um mutismo intrínseco no ar. O que realmente causa suores à língua são as indagações que possuímos sobre o desconhecido. A salivação resultante é cheia de mistérios expectativas.

Quando anoitece, esticamos nossos corpos a meia luz e divimos a sonolência da fartura dos pensamentos.

Fazia tempo que um domingo não era um domingo assim.

E a insônia que me resta tem uma causa bem clara: felicidade.





Sad Eyed Lady of the Lowlands

14 08 2010

O incrível trabalho de Nina Katchadourian.





A viagem

12 08 2010

Quem é alguém que caminha

toda a manhã com tristeza

dentro de minhas roupas, perdido

além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo

como se levassem nos bolsos

doces geografias, pensamentos

de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento

vem morrer no longe horizonte

de meu quarto, onde esse alguém

é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite

coisas em voz que não ouço.

Falemos de viagem, eu lembro.

Alguém me fala na viagem.

(De O Engenheiro,1945/ João Cabral de Melo Neto)





O Pai

12 08 2010

– Tudo bem com você?
– Não.
– Você está na sua casa.





Please, read me

7 08 2010

Em algum momento da sua vida, em algum segundo fora da métrica do tempo – como quando o seu coração sofre uma ligeira arritmia em que ela tenta escutar no silêncio a consequência deste descompasso – ali, bem naquele instante, um suspiro levou o seu diafragma à triste constatação do nada.

A boca que abriu-se para o vazio encontrou a escuridão a esbarrar nos dentes.

Lambeu a intrusa com gosto. Convidou-a a deitar-se ao seu lado.